terça-feira, 17 de março de 2020

O futuro escuro

Quando eu era criança, eu delirava, tinha febres altas por causa de problemas de saúde. Além disso, tinha medo do escuro. A noite, hora da paz pra o sono, era um horror pra mim. Eu olhava o escuro e acreditava que de dentro dele só sairia o mal, o prejudicial, o que provoca dor. Minhas bonecas, mal iluminadas, faziam caretas; as coisas se mexiam assustadormente. Eu experimentava o desamparo, porque todos que podiam me proteger estavam desacordados.

Esta experiência noturna me acompanhou, variando levemente na forma, até por volta de meus 18 anos. Não era toda noite, mas o pavor tem uma maneira de ser lembrado que fica parecedo eterno e sem descanso... 

Porque estou falando sobre isso? Porque imagino que nossa mente funciona assim diariamente, ela olha para o futuro e tudo que pode ver é o perigoso, o mal, o problema, o que dá errado. 

Vivemos com medo constante porque não sabemos o que pode sair do escuro e, lógico, imaginamos o pior. E esta ideia fica rodando em segundo plano, nos atormentando, drenando nossa energia e impedindo-nos de usufruir a existência. Envoltos em resolver problemas, sejam eles de que ordem for, quando nos damos conta, somos velhos e decrépitos o suficiente pra realmente aproveitar. 

E sobre aproveitar não falo de festas, viagens, namoros, luxo... Aqui estou falando mais de experimentar ausência de medo. O olhar pra frente, pra o escuro, o desconhecido, e não sentir que está desamparado. Sentir o vácuo apenas como parte da casa que lhe acolhe tanto quanto qualquer outra coisa. 

A noite pra mim tem sido mais amiga hoje em dia. Mas ainda converso com a analogia. Talvez cheguemos a um entendimento. Estamos no caminho.

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