sexta-feira, 7 de novembro de 2008

ALTRUÍSMO E EGOÍSMO


Fala-se muito em altruísmo, e repudia-se o egoísmo como se fosse uma praga. Muito do que acontece hoje de desagradável pensa-se ser culpa dele. Fazemos cara feia para esse sentimento que achamos produzir um comportamento mau, pouco solidário e de destruição. Ninguém quer ser taxado de egoísta, temos medo de sermos considerados assim, pois o egoísta está condenado à solidão e ao repúdio social. É tanto medo que nem paramos realmente para pensar sobre o que é ser egoísta; queremos logo ser altruístas, bonzinhos, amados. Nossa auto propaganda é : Faço tudo pelo outro. E esse outro não reconhece, não retribui; egoísta é sempre o outro, eu não.

Terminamos vivendo uma proibição de pensar em si mesmo, em nossas necessidades. O engraçado é que todos só pensam em si, na realidade, e imaginam que pensam nos outros. Até o mais generoso dos seres humanos quando diz eu faço o bem, emenda logo atrás dessa frase : por que me faz bem; então fazer o bem para o outro, faz primeiro bem para si, se não fosse dessa forma ninguém repetia o ato. Observar suas necessidades não é egoísmo? Então fazer bem para o outro também não é no fundo um ato egoísta?

Não acredito que hoje já somos altruístas de verdade, nem esse que acabei de descrever; aquele que faz o bem para o outro porque faz bem para si. O grupo maior na terra faz de conta que é generoso; por trás disso está o desejo de ser aceito, querido. Nos forçamos a ter atitudes dedicadas aos outros porque esse tipo de comportamento é recompensado com elogios, reconhecimento. Devemos; repare que é um dever, devemos olhar o outro, pois isso faz com que nossa auto imagem diante o grupo fique boa. Nossa educação não faz brotar o altruísmo em nós, não deixa florescer a real solidariedade, fazemos por dever e não por prazer. Acho até que mentimos em nossa solidariedade; muitas vezes queremos dizer não, mas dizemos sim por obrigação.

Nascemos profundamente egoístas, todo bebê só pensa em si, o mundo gira a seu redor tudo é para si, pessoas, objetos, atenção, etc. Eu sou o centro do universo e tudo é para mim e por mim. Esse é nosso estado natural ao nascermos. Acho que no bebê funciona, se não fosse assim não sobreviveríamos. Com o passar do tempo vamos descobrindo que além de nós existe os outros, entendemos aos poucos que vamos ter que dividir tudo com todos, que decepção, tudo não é só para mim! Esse deveria ser um processo natural, devagar poderíamos descobrir a graça de compartilhar e suas vantagens, mas acho que a coisa não se dá bem assim, ficamos com raiva, não queremos dividir então entra a educação, nos obrigando, forçando, castigando quando não queremos fazer.

Para nascer um altruísta precisa-se mergulhar no egoísta, penso que precisamos ser profundamente egoístas, totalmente para depois desembocarmos no outro lado, e ser solidário, não por obrigação, mas porque já havia se dado tanto que transbordava para todos. Ninguém que tenha pouco dentro de si pode dar algo realmente, damos com uma energia de falta, então logo cobramos de volta; pode ser reconhecimento, algo material que esteja nos faltando, amor, consideração, seja lá o que for cobramos. Ficamos parecendo até agência bancária, sim emprestamos, mas depois cobramos com juros altíssimos. E dizemos, é assim mesmo porque amor é troca, talvez devêssemos dizer é barganha, eu lhe dou um pouco você me dá o que me falta.

Por isso não acredito no altruísmo atual, vejo com certa desconfiança a generosidade de hoje, geralmente sou cobrada pelo que recebo, não percebo as pessoas darem sem querer receber nada em troca. Para mim essa é a verdadeira bondade, dou porque tenho muito e você não fica me devendo nada; as pessoas até falam assim, mas na hora de agir... Ainda não somos realmente honestos conosco, principalmente quando se trata de uma avaliação minuciosa do lado negativo de nosso comportamento. É possível que falando de nós mesmos só tenhamos pontos favoráveis, somos honestos, justos, generosos, bonzinhos...

Existe um conto de Oscar Wilde que fala disso: “O amigo fiel”; conta a estória de um homem rico que se dizia amigo de um homem pobre, mas sua amizade e generosidade só se mostravam na hora de tirar do pobre e o rico tinha uma imagem de si do melhor homem do mundo, não via o que fazia de jeito nenhum. Às vezes penso que somos assim, não nos vemos de verdade, estamos lá esfolando o outro e nos considerando generosos por fazer isso, e dizendo que o outro é ingrato de não aceitar nossa bondade.

Somo bicho esquisito, toupeira de nós mesmos não enxergamos de nós um palmo. Temos uma auto imagem distorcida, às vezes só luminosa, às vezes só sombria, e o engraçado é que realmente não somos nem só luminosos nem só sombrios. Agora, uma coisa é certa não somos atualizados, ou seja, não vivemos no presente, respondemos ao hoje com o nosso passado e isso faz com que nossas atitudes sejam ineficientes, ficamos cristalizados repetindo comportamentos que não servem par aquela situação atual, penso que isso é que faz com que nossas ações pareçam erradas, na verdade elas são baseadas em distorções perceptuais.

Como já disse, para nascer um altruísta, precisamos mergulhar nesse “egoísmo”, que é olhar nossas necessidades também, além de olhar ao redor, olhar para si e poder dizer sem medo de ser condenado, não, eu não quero e sim, eu quero isso para mim. Como o todo é um organismo vivo as pessoas que se precisam irão se encontrar e trocar naturalmente suas abundâncias. Ah! Isso está sobrando, tenho demais de tal coisa ou sentimento e aí transborda para um outro que tem muito de outra coisa e corre para distribuir para outro; generosidade seria então receber. As pessoas se encontrariam, não precisaríamos nos preocupar, pois viveríamos num mundo de ricos e não de mendigos ambiciosos guardando para trocar com mais valia. Enquanto formos pobres de coração não haverá real altruísmo; e sim dever com capa mais bonita. Dar sem esperar nada, absolutamente nada, em troca porque se tem o conhecimento que nada nos falta, ainda não existe, mas é possível, se começarmos a ser mais honestos conosco, reconhecendo nossas próprias necessidades e indo primeiro busca-las por um tempo, até sairmos ricos do outro lado.Seria assim: Eu me dei tanto que agora posso transbordar, não porque o outro precisa, mas porque é minha natureza. Seríamos como o sol, a chuva, o aroma das flores, apenas sendo e irradiando, e do nosso ser benefícios viriam sem nenhum esforço, sem nenhum sacrifício, meu estado natural é vibrar generosidade não seria um ato planejado de dever, mas um existir.

Penso que é possível esse grau de altruísmo, mas não antes de conhecermos nosso egoísmo, essas coisas não se aprendem como conhecimento, na escola, elas são vivenciadas e transcendidas na experiência, no treino, no acolhimento dos aspectos mais inferiores, permitindo que eles gradualmente se elevem e se transformem como lagartas se transformam em borboletas.

Minha proposta é vivam com consciência o egoísmo, e ele se transformará em altruísmo; porque essa é a natureza das coisas.

Namasté!

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7 comentários:

  1. Anônimo:

    Não sei se vc é a mesma pessoa dos outros anônimos, mas gostaria de saber seu nome...
    Bom, se quiser...
    De qualquer forma obrigada pelas visitas e comentários!!
    Abraços!

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  2. Belo texto!!.tenho que admitir que vc é uma escritora de uma sapi
    ência incontestável!!

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  3. Supra Sumo:

    Nossa! Muito obrigada!
    Eu me esforço! rsrsr
    Bjão!

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  4. Olá Nanda, achei seu blog quando procurava uma imagem para a minha última postagem. Gostei muito do seu texto e/ou suas reflexões. Parabéns pelo espaço, pretendo visitar mais vezes! Quando tiver um tempinho, visite meu blog:http://construindosentidos.blogspot.com/

    Abraços!!

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  5. Stella:

    Que bom!!! Espero que vc volte sempre!
    Bjão!

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Oi queridos/das, adoro ler comentários, contribuam para o meu prazer! Obrigada.